o fim de outubro

Postado por C. às Sábado, Novembro 07, 2009

sábado, 7 de novembro de 2009


tinha já o costume de selar o fim de outubro com um beijo dela.  não que se amassem. não que fosem namorados. ...não que fossem obrigados.  mas havia, sabe-se lá por qual motivo, uma conjunção de fatores aleatórios que unia aqueles lábios no último dia do mês dez.
agora, pela primeira vez (desde que podia se lembrar), não cumpria o ritual quase necessário para que o  novembro tivesse permissão de começar.

acordou com as horas do décimo primeiro mês correndo lá fora, sem sentir na sua boca os resquícios da boca dela, adoçando os dias que teria pela frente. por esse motivo, e porque já contava mesmo com o sabor paliativo daquela saliva, novembro não veio como ele esperava.
novembro veio seco, veio meio-amargo- difícil de transpassar a garganta.

veio como um pigarro doente e sanguinolento. e arranhou fino para depois ficar doendo uma daquelas dorzinhas irritadiças. ele evitou buscar o alívio do chuveiro ou a cura salgada  do mar, prevendo, sabendo decorado o ardor do arranhão.


embora tudo dissesse o contrário,  o calendário gritava: era novembro.  (pegou a si mesmo lembrando nervoso sua caçada pelas palavras mais bonitas, somente para contar à menina sobre a ressaca dos olhos de Capitu).  novembro: então quer dizer que esse era o seu gosto verdadeiro?  novembro... uma ligação surreal entre os dois, feita de silêncio e reticências madrugada adentro, a qual já não tinha mais certeza se existiu ou fora apenas invenção, dessas que brotam d'numa noite de insônia. novembro.




tudo estava. claro.

e então, pouco importava que não viessem doces as horas do penúltimo mês. ela havia lhe dado o que  realmente precisava. aquela coisa desejada, esperada louca e ansiosamente:  apesar de tudo, estava  ali, embrigado de inspiração.

e então, era como se fosse o primeiro fim outubro:  quando acordou com um soneto pronto e perfeito no verso das pálpebras.  ou o segundo - aquele em que foram fortes - em que não dormiu, com um poema revirando-lhe o estômago e o juízo. ou o terceiro - aquele, quando as roupas rapidamente lhes abandonaram  no banheiro frio frio, na companhia sacana de pensamentos que pulsavam proibidos em todos os orgãos dos seus corpos - e as palavras escorreram nuas pelas pontas dos seus dedos.

e então veio, não tão tardio assim. desligou o telefone, acabando de vez com aquela ligação surreal. agarrou a caneta e um bloco de anotações que jazia sobre a cômoda do hotel. e escreveu.


engenharia sentimental

Postado por C. às Terça-feira, Outubro 27, 2009

terça-feira, 27 de outubro de 2009

essa noite, antes de dormir, destruirei o nosso amor.
vai dar tempo, sim. deixei quase tudo pronto: plantas, planos e a quantidade exata de explosivos estrategicamente colocados em cada alicerce, em cada barra que aguentamos, e em cada um dos nossos sonhos. (esperando imóveis o momento certo para implodir.)
ela diria que eu estou novamente boicotando uma relação que estava dando certo, mas não fui vê-la esta semana mesmo... assim posso fingir que não sei disso e que, poxa, não teve ninguém pra me avisar. a verdade é que boicotei minha ida à terapia também.

eu sei, moça, eu sei que já começo planejando as coisas pela escada de incêndio. e sei que construo um sistema independente, que não falhe diante de estímulos elétricos, carnais ou sentimentais, pra facilitar a destruição previamente programada. é que, assim, não me preocupo muito com a sujeira do depois

fica desse jeito. tudo, inclusive eu, pronto pra quando o gozo virar motivo de nojo. e eu não aguentar mais olhar pra cara do sujeito. e tiver enxaqueca só de ouvir a voz dele, mesmo no telefone. pra quando eu tiver vontade de partir-lhe a cara só porque ele é efusivo demais e, putaqueopariu, eu não a-g-u-e-n-t-o gente efusiva. me soa falso(segurava a tua cabeça assim), falso(pelos cabelos) e digno de pena(batia contra aquela parede ali), desprezível(uma, duas...) e lamentável(vinte vezes, até sangrar e você aprender a falar sem gritar e a parar de contar vantagem no meu pé do ouvido).

mas sangue espalha e mancha. é ter, em minhas próprias mãos, testemunha de auto-acusação quando preciso é de um álibi, plantado desde o primeiro dia, estrategicamente, na fundação daquilo que talvez nunca sejamos.

02/06/09

hoje eu vesti uma calcinha ao contrário

Postado por C. às Terça-feira, Outubro 27, 2009

hoje eu vesti uma calcinha ao contrário. e só vim reparar muito depois. foi o estopim. percebi que precisava, loucamente, escrever. não que isso(vestir uma calcinha ao contrário) signifique muito sobre a minha pessoa ou seja lá muito grave, mas a gente pára(com acento, porque não gostei das novas normas) e se pergunta: onde é que tava minha cabeça?

minha cabeça não estava em ninguém, em nenhum ponto distante de nenhuma galáxia perdida. minha cabeça estava onde está agora: aqui. presente. demasiado presente. em tudo e em todas as coisas e em todas as pessoas que me cercam.
mas é que as coisas tem sido tantas que, de vez em quando, tudo trava. como se cabeça fosse coisa que rodasse com windows.

são as coisas do dia a dia, se atravessando e se instalando de uma forma que eu chego a esquecer quando foi a última vez que lavei meu cabelo. esqueço que meu passe-fácil está acabando e que - porra! - eu não tenho dinheiro pra pagar a passagem inteira. esqueço de fazer as unhas(e as pernas). esqueço que marquei reuniões. esqueço que desmarquei encontros. e não lembro mais há quantos meses não vou ao dentista apertar meu aparelho.

e um "eu te amo", que é coisa que raramente esqueço?
há quanto tempo eu não digo, há quanto tempo eu não ligo pra dizer? há quanto tempo não escrevo um poema*? não me sobra um real de tempo.

a loucura, a correria, o ritmo doente da cidade. a aventura quase suicida que é trabalhar com criação.
há mesmo uma hora em que tudo fica tão enorme e confuso que você se pergunta: meu deus, eu já jantei hoje? eu fui fazer xixi? eu vi eu pensei eu sonhei ou eu fiz? e olha as horas três vezes seguidas no relógio, antes de descobrir que horas realmente são.

e entra no quarto sem saber o que foi buscar. e sobe no ônibus errado.e cochila na viagem de volta pra casa.
e perde a conta: dos foras, dos títulos recusados, dos sims e dos nãos(tenha muita auto-estima e saiba fingir que suprime sua vaidade. repita comigo: auto-estima, vaidade, auto-estima...),

e perdemos a conta dos emails recebidos e enviados, das vezes em que chegamos perto, pertinho de explodir. e respiramos fundo. e damos um sorriso. porque ninguém tem nada a ver com o cérebro cozido que vai implodir dentro das nossas cabeças e porque amanhã, fatalmente, será outro dia.



*não esqueci que te prometi um.
beijo.

Postado por C. às Segunda-feira, Outubro 26, 2009

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

ai, merda. post pela metade não, né?